Ontem definitivamente não foi um dia bom. Acho que não foi. Queria comprar um presente para meu pai, então, peguei meus sobrinhos pequenos: o Maycon e a Eduarda e saimos. Fomos ao comércio para procurarmos o presente.
Logo que cheguei, procurei por um local para estacionar, difícil em véspera de festas, como é o caso do dia dos pais... Após estacionar, peguei as crianças e fomos descendo a mesma rua. Passando em frente a um portão que se encontrava aberto, pois o dono encontrava-se regando a planta no passeio, avistamos um simples e minúsculo cachorrinho de uma raça que não consegui identificar, dado o calor do momento, e o fato de tê-lo subestimado mesmo, pois não percebi o quanto era perigoso a não ser quando senti o meu calcanhar sendo abocanhado por ele... Motivo pelo qual, de susto, gritei um ai meio sem graça e muxo!... Mas suficiente para assustar e preocupar o velhinho, que me olhava meio assustado meio preocupado, com os olhinhos quase saindo das órbitas, dizendo:_ Machucou? Olhei para ele meio consternada com sua preocupação que até esqueci de minha própria dor para responder-lhe:
_ Acho que não... deixa eu ver... Está ardendo somente, mas não sangrou... Parei um pouquinho. Verifiquei um pouco o local e não vi nenhum ferimento... Então, acalmei o velhinho, e continuei andando, descendo à rua, agradecendo aos céus por ter sido o meu tornozelo e não os de meus sobrinhos, razão que me fez ficar mais atenta e prestar atenção nos portões para ver se tinha mais cachorros... Não queria correr mais riscos, pensava.
Cheguei à loja para ver o presente de meu pai... Uma loja masculina, óbvio, mas algo aguardava-me. Olhei as promoções e ofertas, analisei também as de preços normais... fui olhando um pouco para encontrar o que eu procurava... mas sabendo o que eu mais ou menos queria. Em um dado momento, os meus sobrinhos e eu olhávamos algumas camisas bem despreocupados, quando fomos quase que imprensados por uma família que também buscava alguma peça próximo a nós, mas que fingia que não nos via... Como se estivéssemos invisíveis... A mãe veio pela frente onde eu me encontrava. E uma das filhas por trás onde estavam os meus sobrinhos... Cá para nós: não gosto de assumir isto, porque estou lutando contra. Odeio estar gordinha, mas tenho que encarar esta dura realidade!... E a senhora começou a me empurrar literalmente sem a menor cerimônia, como se eu fosse um saco de batatas... E, por outro lado, a filhinha dela fazia o mesmo com os meus sobrinhos... Parei tudo que fazia... Segurei meus lindos sobrinhos, voltei-me para a rica senhora, pois parecia a mãe _ acho que era a fortuna dela que a fazia me tratar como um lixo _ olhei bem para a cara dela para ver se ela se tocava que eu também era um ser humano, como ela, e portanto merecia respeito, esperando que ela se dignasse a pedir licença ou me enxergasse ali, aguardando respeitosamente a minha saída e de meus sobrinhos do local para poder entrar e não passar por cima de nós como ela estava fazendo ou pelo menos tentando fazer literalmente...
A mulher assustou-se tanto ao perceber o meu semblante feroz que desapareceu da minha frente, largando as peças que estava olhando... Tomara que tenha entendido o recado e aprenda a ser educada e não a querer dominar ninguém pela força do dinheiro ou da aparência...
Mas o dia ainda não tinha acabado... Levei as crianças para a casa delas... Faltava ainda ir buscar a minha outra irmã e os filhos dela na Rodoviária, pois iam chegar de São Paulo. Então, precisei voltar ao centro da cidade outra vez, porém a minha mãe lembrou-me muito temerosa _ ela teme muito _ não sabe lidar com o problema. De minha parte, aprendi... Ela avisou-me para tomar cuidado pois era dia das saidinhas dos presos, por causa do dia dos pais... mesmo que não pareça, eles também têm pais. Agradeci a ela e disse-lhe querendo lhe dar lição...
_ Mãe, eles são seres humanos como nós. Se os tratarmos bem eles não mexerão conosco.... Apenas não devemos nos expor ao perigo... E tentei ensinar-lhe uma porção de teorias, que na prática não são tão fáceis assim... Cada acontecimento requer uma atitude própria, então, gastei mesmo um pouco de teoria...
Para começar quando cheguei na Rodoviária fiquei meio que preocupada porque quase não encontrei lugar para estacionar... Depois quando cheguei no guichê havia aquelas pessoas "diferentes" como diria alguns esnobes, mas encarei... Fiquei por ali observando-os. Pareciam querer externar seus sentimentos justamente em público... mesmo em presença dos policiais que estavam a fazer a segurança do local... Para azar deles porque em
dado momento, um policial saído dentre aqueles, começou a esbravejar em alto e bom tom alguns impropérios, que nem me ative, tamanha a importância que dei... Eu considero desnecessário a truculência de alguns policiais, levando-se em conta que já estão devidamente armados... Todos sabem, pelo menos eu imagino que saibam, as consequências de enfrentar-se pessoas armadas, mesmo que estas pessoas tenham o dever de proteção... E tentar chamar a atenção das pessoas por causa de algum barulhinho, ou de um comportamento diferente, realmente não me impressionou nem um pouco... Estamos em um país democrático, e São Paulo está inserido neste País... Temos que respeitar o direito das pessoas serem como elas desejam ser, e não porque o outro é assim, também vou ser... Cada um deve respeitar o direito do outro: civilização...
O povo agora assustado, sem que eu pudesse identificar se era por causa do policial ou da presença daquelas pessoas ali tão próximas deles, olhavam-nos como se fossem extra terrestres ou como se tivessem uma doença contagiosa...
Claro, que eles perderam o chão e a espontaneidade ou sabe Deus o que mais... Alguns não souberam onde enfiar a cara e foram saindo de mansinho. Outros sentaram-se para disfarçar... E eu continuei a observar todo o desenrolar daquela cena... Como o meu dia ainda estava por começar, tentei não pensar muito naquele espetáculo... Continuei aguardando o ônibus que após uma hora chegou, trazendo os meus sobrinhos e a minha irmã. Fomos para casa tentando colocar as novidades em dia e orando para que o dia de cão fosse encerrado sem mais nenhum contratempo...
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